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O fôlego mais longo

  • Foto do escritor: Jimi Aislan
    Jimi Aislan
  • 30 de mai.
  • 2 min de leitura

Primeiro você olha a água. Sabe que terá que mergulhar. Um passo, depois outro e antes do mergulho, há muito barulho. O som a sua volta é alto, mas o que te consome mesmo são os ecos dos pensamentos, quebrando nos mil assuntos que te inundam a todo o tempo. Aí você prende a respiração e se joga para dentro da água. Silêncio. Dúvidas sobre o seu espaço. Abre os olhos e percebe o quão profundas são aquelas águas. Não importa mais saber nadar. A superfície não te pertence mais. Há um silêncio colorido que mora na sua imensidão e isso é tão belo quanto doloroso.

A dopamina instantânea não te emociona mais e há uma necessidade por algo mais real, mais próximo do escuro que habita as pessoas profundas. Falatórios superficiais ficam borrados para o lado de fora da margem e um cansaço te consome nas explicações de coisas óbvias. Erro de percepção: as coisas óbvias não alcançam os sentimentos complexos. Dopamina e vida no automático. E a cada braçada para dentro de si, a solidão aumenta por sentir que poucas almas ainda almejam esse mergulho, que não têm medo da profundidade interna.

Você volta à superfície para buscar um novo fôlego e, nesse breve instante, quase se afoga com a dificuldade de filtrar tantos estímulos, tantas pessoas falando sem escutar, tantos sorrisos encobrindo maldade e isso cansa.

No novo mergulho, começa a lembrar do prazer indescritível de olhos nos olhos, de pessoas inteiras diante de si que não precisam de conversas para preencher todos os silêncios. Que ruminam uma ideia pelo simples fato dela ser impactante. Então, a profundidade transforma o ordinário em sagrado. Quanto mais longe você se aventura, mais descobre camadas e subcamadas dentro de si, mais aumentam suas próprias contradições, porque as certezas moram na superfície, onde a água não passa da canela e todos conseguem afirmar que é possível sobreviver da mesma forma, com os mesmos objetivos online, os mesmos cheiros e gostos, com a mesma resenha literária, com o mesmo comentário em perfil.

Você ri. Suas tantas camadas te provam que você não precisa ser uma pessoa coerente o tempo todo. Confia na sua essência, que vem de outros tempos e que te trouxeram essa capacidade de ver além do caldo ralo do pires. Há muita solidão na profundidade. Você ri, porque sabe que não está só de fato, apenas tem nadado há muito tempo em águas rasas, conversando com pessoas entorpecidas por desejos que não são seus.

Então você para de tentar se manter no fundo e não luta para voltar para a superfície. Consegue perceber que a profundidade não é um lugar para se chegar – é o jeito que seus olhos aprenderam a ver. Você ainda sobe à superfície de vez em quando. Precisa do respiro e está tudo bem. A beleza também mora nessa trégua. Mas já não se engana mais, porque o fôlego mais longo sempre será o de baixo.

 
 
 

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