top of page

Verdade ou consequência

  • Foto do escritor: Jimi Aislan
    Jimi Aislan
  • 26 de out. de 2018
  • 3 min de leitura

Hoje vou sem calcinha para a escola. Era uma ideia tola, mas ser piranha deveria significar mais que gostar de um menino e um outro lhe arrancar um beijo. No fim das contas, a escola era mesmo um espaço de sobrevivência. Não esquecia do dia em que chamaram seus pais. A velha diretora disse que ela distraía os meninos da turma, sorriu para mãe falando “tão moderninha, já usa até maquiagem”. A mãe apenas a repreendeu com os olhos.

Tirou a saia e a calcinha. A maquiagem estava ali, abandonada no quarto, ao lado das bonecas mais antigas. O Betinho já tinha falado que ela ficaria muito linda, era só se esforçar um pouco mais. Ele sempre pegava no pé dela. Já era difícil ser a primeira da classe a usar sutiã, mas aguentar ele puxando o elástico e fazendo um barulhão no meio da aula era demais. No desvio do tapa, ele só piscou e disse “só te incomodo porque te adoro”. Ela foi esforçada, tentou até alguns tutoriais de make, mas ainda lembrava da cara da diretora e o olhar da mãe. Era melhor passar um batom mais leve dessa vez. Escolheu o carmim.

Olhou para o espelho e descarnou os lábios. A sua imagem refletida a incomodava. Melhor tirar o sutiã também. Aqueles seios brotaram-lhe cedo demais, grandes demais. Andava de ombros encolhidos para maquiar-lhes o tamanho. O tio Adroaldo, vizinho amigo da família, já tinha feito o alerta “Você vai dar muito trabalho ao seu pai” seguido de um olhar estranho à beira da piscina. Mas ele se enganou, ela já dava trabalho.

Na volta da escola, mês passado, um caminhão passou ao seu lado devagar e buzinou. Por que os meninos têm que usar abrigo e nós saia no uniforme? Ela fechou a cara rente ao chão e apressou o passo. Um velho baixou o vidro e a chamou, assoviou, gritou. Ela deixou o cabelo esconder a face, andou feito cavalo, olhos fixos à frente. Só foi distraída pela água, seguida do impacto da garrafa, atirada do caminhão. “Devia se sentir agradecida pela buzinada, vadia”, gritou a voz, antes do caminhão arrancar. Coração desacelerou um pouco e olhou constrangida para a rua. Alívio, não tinha ninguém olhando. Ao narrar o episódio em casa, a mãe comentou “dramática como sempre, isso que dá ser canceriana”.

Menos por drama, mais por convicção, procurou o coordenador pedagógico para contar sobre a educação física. O professor, que sempre lhe corrigia a posição na quadra apertando sua cintura ou segurando o pescoço com um leve afago, foi um pouco além. No último treino, avançou abaixo do uniforme. “Você tem certeza? Ele é um pai de família, e essa acusação pode custar-lhe o emprego. No fim das contas será sua palavra contra a dele” proferiu o coordenador. Ao sair da sala, ela ainda ouviu algo como “as mulheres podem tudo, mas devem ter cuidado com as consequências”.

Amarrou o cabelo e deu uma última analisada na sua imagem. Está bom, mas vou descalça. Será que ela realmente queria chamar a atenção ou era um simples efeito do mundo? Sorriu, pois assim ficava mais bonita, dizia o treinador. Pegou a mochila sobre a cama e afagou a cabeça da gata. Desceu as escadas deu tchau na saída de casa. “Não vai comer nada antes da escola?”, mas a mãe só ouviu a porta como resposta e resolveu espiar pela janela. Num sobressalto, passou pela sala gritando “Clemente, nossa filha está indo pelada para escola”. “Já falei que as saias estão cada vez mais curtas”, disse o pai sem tirar os olhos da televisão e ouviu a mesma porta como resposta. A mãe já ganhava rua com uma toalha na mão.

Comentários


Cadastre-se

  • Instagram ícone social
  • facebook

©2018 by nós e palavras. Proudly created with Wix.com

bottom of page