A leitora de almas
- Jimi Aislan
- 2 de dez. de 2018
- 3 min de leitura

Conheci uma mulher, há alguns anos, que parecia ter lido mais que todos na terra. Não era poliglota, muito menos estudada. Era um parteira do interior do Brasil. Ou melhor, tinha sido, pois já passava dos oitenta anos. Enquanto aguardava minha avó terminar uns exames na recepção, Dona Geni esperava sua neta, também em exames. Conversamos por mais de uma hora e depois de me narrar umas dezenas de parto, ela disse:
— As pessoa acham que quem num sabe lê é burro. E eu acho isso também. Não dessas leitura de papel. O sinhô já leu alma?
— Acho que não, como se lê alma?
— Ora, pelos olhos. As pessoa são livros com final aberto e história tudo misturada. Oiá nóis! O sinhô já sabe mais de mim que minha neta.
— É que a gente tá proseando, falei tentando engatar no linguajar dela.
Tinha olhos bem fundos, parecia estar sempre à beira do choro, a boca tremia de leve entre um silêncio e outro. Lenço na cabeça e um auto ninar em câmera lenta, assim ela ia cadenciando uma história na outra.
— Num carece o sinhô tentá fala de outro jeito. Sômo o que falamo, num é mesmo?
— Creio que sim, mas eu posso falar outras línguas sem mudar o idioma, a senhora não acha? Minha avó que tá fazendo exame é do interior do estado, fala meio italiano e meio português. Ou melhor, ela me xinga em italiano, depois explica em português. E assim nos entendemos.
— Sua vó é mais moça que eu?
— Acho que não, respondi ainda com dúvida sobre isso.
— Pode sê, mas como le dizia, já botei muita gente nessa vida. Cada par de olho tem uma historinha pra contá. Uns vão ser feliz, outros mais triste, tem gente que vai amar, outros vão ser amado. Uns vão enricar e outros vão empobrecer. E saiba o sinhô, não tem essa de destino. Isso é invenção de quem tem medo de escrevê a própria história.
— E Deus? Perguntei pra provocar.
— Deus num tem tempo de cuidá das página. Ele tá preocupado com a biblioteca. Somos um punhado de livro andando, tudo olhando pra capa do outro, pouco se lendo. Muitos imaginando que a vida dos outro é conto de fada, mal sabe que todo livro bom de verdade, tem um pouco de tudo. Tem gente até que tem prateleira de pessoas em casa. Guarda pros outros num ter.
A medida que falava sobre a sociedade, ia notando o quanto ela se alfabetizou em gente. Uma pessoa letrada nas pequenas humanidades. Olhei ao redor da sala de espera. Alguns nos celulares, poucos com fone de ouvido. E só nós dois conversando.
— A senhora não acha que tem muito livro ruim?
— Oh, se têm! Mas tem muita história sem final ainda, dá tempo de mudá. Passei dos oitenta e ainda conto com saúde, minha neta mal namorô e já tá com uma doença de não comê. Se acha gorda e num come. Tem livro mais cheio de página, tem livro mais curto, tem de tudo meu filho. Só num pode ficá pendurado na estante. Quem junta poeira, não larga história. Nóis nascemo é pra conversá, pra tá tudo junto. Vê isso de ficá com telefone na mão. Ninguém se fala, nem se olha mais nos olho!
Vi que minha avó saia do consultório e fui ajudá-la. Pedi licença e me despedir agradecendo a conversa, mas ela se adiantou:
— Meu filho, obrigado pelo dedo de prosa. A hora avuou. O sinhô é bom leitor de mundo.
— Que nada, eu é que agradeço pela aula de leitura.
Ela sorriu, poucos dentes, olhos sempre marejados que olhavam fundo, tão fundo a ponto de me tirar da estante. Aliás, como ela mesma disse, quem junta poeira, não larga história.
Você já leu alguém hoje?


Comentários