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Quando a pressa chega ao coração

  • Foto do escritor: Jimi Aislan
    Jimi Aislan
  • 18 de nov. de 2018
  • 3 min de leitura

O mundo tem pressa, a vida acelerou e seríamos muito mais felizes com nosso dia tendo umas trinta horas. Abrem-se três, quatro ou mais navegadores no computador, verifica-se todas as contas de mídias sociais à procura de uma importância, alimenta-se em pé, manda-se mensagem no trânsito, e quando alguém começa a contar uma história pessoal, invariavelmente os olhos recaem no relógio. Pode até ser coisa do “tempo é dinheiro" ou culpa dos fastfoods. Não importa, o fato é que a vida acelerou e com ela, os sentimentos.

Pessoas querem enriquecer sem trabalhar. Entrar numa faculdade, aprender mil coisas sem ler e estudar. Sair para a vida profissional ganhando dez mil reais por mês no primeiro emprego. Mesmo sem conseguir, compra-se coisas sem ter o dinheiro, parcelando o que ainda não se tem. Há uma pequena confusão entre causalidade e casualidade. Olhe as academias lotadas há um mês do verão, procurando um corpo trincado sem fazer exercícios, dietas sem sacrifícios, fazendo cirurgias temerárias para corrigir uma estética da urgência. Tudo isso comendo o ano inteiro como se fosse Natal.

A ansiedade vive entre nós. Esperando o próximo feriado, planejando as próximas férias, ainda em férias, e por vezes pensando no que fazer de janta durante o almoço. Para quê ler livros, se há leitura dinâmica para atropelar as histórias? Sem falar dos spoilers. As metas têm que ser cada vez mais próximas do presente e a capacidade de planejar a longo prazo está se esvaindo.

Mas o maior perigo mora na perda da capacidade de construir alguma coisa dentro de nós mesmos. Essa pressa em edificar uma personalidade, moldar uma forma de viver baseado em momentos, tem levado as pessoas a procurarem com desespero algo que falta, internamente, nos outros. Uma escassez de originalidade transferida na dependência desmedida.

Basta olhar para os relacionamentos. Como é possível sonhar com filhos antes mesmo de se apaixonar por alguém? Esse imediatismo da família vira corrida em se apaixonar, transformando amor em necessidade. Pessoas que olham para o passado com desespero das relações falidas e agora buscam por um Frankenstein, aquele ser que tenha todas as qualidades dos ex relacionamentos sem nenhum defeito deles. Nenhuma relação é falida, tudo é autoconhecimento e deve ser transformado em amor próprio, em base de percepção.

Desejar sexo no primeiro encontro, nunca será um problema. Mas não anseie por algo avassalador. Pele com pegada, assim de cara. Beijo com gosto. Tesão a flor da pele, uma espera contínua, pela melhor transa de todos os tempos com uma pessoa semidesconhecida. Consumidores de sentimento em busca de um Combo: amor, sexo e carinho. Sim, porque tudo isso deve ser precedido, e sucedido, de conversas agradáveis, olhares misturados com sorrisos, e aquela frase mais desejada (e por vezes falsamente forjada) "nossa! parece que nos conhecemos há tanto tempo...". Pode até acontecer, mas altura da expectativa é ligada ao tombo da decepção. Tudo em nós é constante ato de construir, sejam pontes com outras pessoas, seja ligação de sentimentos em nós.

Hoje, vivemos no limite das nossas emoções. Num constante acelerar-se. Até alcançamos mais idade que nossos antepassados, e no fim, apenas existimos por mais tempo. Porque viver está relacionado a evoluir, a autoconhecimento transformado em ser melhor que ontem, sentindo cada fase de um novo sentimento. Amadurecendo. Um se apaixonar pelas escolhas, assumindo seus riscos, entendendo as quedas, valorizando os sucessos. Quando a pressa chega ao coração, abandonamos o propósito maior e passamos a perseguir um único sentimento, relegando os outros. Quando a pressa chega ao coração é hora de desacelerar, de sentar em banco de praça e contemplar um pouco o momento em busca de si mesmo. Esqueça as mídias e esqueça o relógio, amor está no espaço não publicado de cada respiração.

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