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O que nos habita

Foto do escritor: Jimi Aislan
Jimi Aislan
17 de out.
2 min de leitura

Mudar de casa é uma experiência curiosa. A gente passa anos organizando armários, ocupando gavetas e guardando coisas que, por algum motivo desconhecido, julgamos indispensáveis. Até que chega o dia da mudança e descobrimos três abridores de garrafa, cabos de aparelhos já descartados e objetos cuja única utilidade parece ser ocupar espaço. O mais engraçado é que ainda pensamos: vai que um dia precise! E assim começa a estranha tarefa de decidir o que merece continuar conosco.

Tenho pensado que fazemos exatamente a mesma coisa com a vida. Acumulamos experiências, afetos, certezas e mágoas embaladas em plástico-bolha, dessas que já nem lembramos de onde vieram, mas continuam inquebrantáveis. Decoramos nossa intimidade com o que aprendemos e, principalmente, com o que improvisamos pelo caminho. Um ganchinho para pendurar um amor, uma prateleira para dispor decepções, uma grade para proteger algo precioso. Há também reformas para agradar os outros, como aquela cama extra para as expectativas alheias que nos visitam ou um paisagismo ostentador para sustentar a imagem de quem gostaríamos de ser. Quando percebemos, habitamos um espaço que pouco tem de nós mesmos. Mas seguimos chamando tudo aquilo de personalidade.

O problema aparece quando a vida anuncia uma mudança. Pode ser um relacionamento que termina, uma profissão que já não nos representa ou aquela pergunta inconveniente da terapia que nos acompanha até em casa e se senta no sofá pedindo para trocar o canal. Abrimos então armários esquecidos e encontramos ressentimentos empoeirados, medos herdados e comportamentos que já não têm valor sequer num antiquário. E pensar que ainda pagamos frete emocional para levá-los de uma casa para outra.

Mas nem tudo merece ir para o lixo. Há também aquele álbum de fotografias em que algumas das melhores partes de nós continuam sorrindo. Amigos, viagens, o sonho de tocar algum instrumento musical e versões nossas que já não combinam com a decoração sugerida pelo Pinterest. É curioso perceber que, tentando construir uma casa estilosa, escondemos justamente aquilo que mais tinha a nossa cara. Talvez amadurecer seja distinguir o que somos daquilo que apenas nos acostumamos a carregar.

Depois da mudança, a vida continua. Penduramos cortinas, recebemos visitas e inevitavelmente voltamos a acumular coisas. Até que outra mudança nos convide a revisitar os armários. Lembro da música do Skank sobre nossa casa estar onde está nosso coração. Gosto dessa ideia porque mudar não precisa significar romper com a própria história. Podemos trocar os móveis, pintar paredes e modificar o piso sem perder aquilo que torna a casa única. Nossa essência talvez não esteja numa decoração minimalista, mas naquilo que continua fazendo sentido ao longo do tempo.

Às vezes penso: e se fôssemos uma espécie de motorhome, levando nossa casa para conhecer outros lugares? Há beleza em criar raízes, cultivar um jardim e acompanhar as estações pela mesma janela. Mas gosto da sutileza de descobrir novas paisagens e perceber que pertencimento não precisa significar imobilidade. Afinal, o excesso de bagagem dificulta qualquer viagem. E quem sabe a grande questão não seja escolher entre criar raízes ou ganhar rodas, mas perceber que Samuel Rosa tinha razão. Talvez o maior desafio de uma mudança não esteja em encontrar espaço para tudo o que temos, mas descobrir quanto espaço realmente precisamos para, simplesmente, nos habitarmos.

 
 
 

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