O amor que não cabe num frame

Gosto de pensar que um relacionamento é como ir ao cinema ver uma estreia. A gente espera muito pelo filme e esse dia chega. Então você veste o melhor sorriso e entra na sala com um balde de expectativas e os olhos vidrados na beleza de uma tela gigantesca. Sim, ela é maior do que você imaginava que seria. Os efeitos sonoros, o espaço profundo, as camadas do roteiro, tudo lhe mostra o real significado da palavra magia e você se vê perdidamente apaixonado já nas primeiras cenas.
Como em todos os roteiros, temos vidas em movimento, viagens inesquecíveis, expectativas sobre as próximas cenas. Tudo flutuando diante dos nossos olhos. Tem filme longo, curta-metragem, documentário e histórias cujo formato só entendemos quando os créditos sobem. Por vezes, o filme termina e nos resta sair do cinema esperando uma próxima sessão de um outro filme. É a vida.
No entanto, tem algo que acontece, que não é o curso natural da vida, muito menos de um filme. O cinema nos oferece uma boa ilusão: dezenas de imagens estáticas por segundo tornam-se movimento diante dos nossos olhos. Mas a grande questão aqui é quando passamos a guardar instantes congelados desse filme. Enquanto o enredo segue, aquele frame passa a ser muito importante, nenhum detalhe passa despercebido ao olhar que escrutina a cena estática. Num plano sequência, esses detalhes nos escapam, porque o envolvimento com o filme é sinestésico, é entrega ao momento, acompanhando a tela toda com os olhos, ouvidos imersos no eco da sala, pipocas no ritmo da respiração.
Perceba, deixamos de viver tudo que torna o filme uma arte esplêndida para olhar instantes que guardamos. Alguns só lembram da abertura nos primeiros encontros, outros, mais “esclarecidos” conseguem atualizar essas fotos de tempos em tempos durante a sessão. Talvez por isso parece meio triste quando deixamos de conversar com as pessoas-filme e passamos a tentar conversar com as pessoas como se fossem retratos, imóveis, momentos em porta-retratos, emoções em sorrisos na praia. Só frames.
A maior aventura do cinema da vida pode estar em nos apaixonarmos como as crianças fazem quando assistem a um filme. Atenção ao todo, emoções que transbordam, risos e lágrimas sem constrangimento. Elas não procuram frames perfeitos nem pausam mentalmente a história para entendê-la. Estão ocupadas demais vivendo aquele movimento.
Talvez pudéssemos fazer algo parecido com nossos relacionamentos. Emoldurar menos cenas, procurar menos erros de continuidade, deixar alguns easter eggs passarem despercebidos e perdoar o roteirista por uma ou outra transição sem grandes feitos. Apenas voltar os olhos para a tela inteira e perceber que, apesar de todos os frames que guardamos pelo caminho, o filme nunca deixou de acontecer.
E então, enquanto você volta a olhar para aquela tela gigantesca, algo acontece. A câmera se afasta e, de repente, sua poltrona, a sala, a pipoca e até você aparecem centralizados em outra tela. Do outro lado, aquela pessoa que você passou tanto tempo assistindo agora acompanha os seus movimentos. Também pode estar guardando frames seus pela história. Ou está apenas ali, como uma criança fascinada, olhos vidrados na tela, assistindo ao filme de uma vida que, sem perceber, vocês fizeram juntos.
Talvez seja isso que chamem de Absolute Cinema.



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