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Namore alguém que consiga ficar sozinho

  • Foto do escritor: Jimi Aislan
    Jimi Aislan
  • 1 de nov. de 2018
  • 4 min de leitura

É comum as pessoas criarem listas de melhores conselhos. Tão normal que volta e meia surge algum texto que te dê dicas sobre os mais variados assuntos, "dez peças que não podem faltar no guarda-roupas", "15 filmes para se ver antes de morrer" e assim listamos tudo. De todas essas formas de organizar a vida alheia, a que mais me perturba é a que lista qualidades que as pessoas devem ter em um relacionamento. Tipo "namore com quem leia bastante" ou "saia com caras que abram a porta do carro". São boas dicas, afinal leituras e gentilezas elevam qualquer relacionamento a outro patamar. Contudo, não basta ter uma coisa ou outra para se relacionar. É preciso mais que isso, é necessário que a pessoa descubra suas qualidades e defeitos. E das várias formas de buscar esse autoconhecimento, talvez a mais transcendente seja a experiência de morar sozinho. Se for namorar alguém, experimente uma pessoa independente, que seja dona, mesmo que locatária, do seu próprio canto.

Quando se administra uma casa ou apartamento a primeira coisa a se desenvolver é o senso da responsabilidade. A provisão de que as coisas durem no tempo certo, seja dinheiro no mês ou eletrodoméstico pelo maior tempo possível, passa a ser encarado como meta de vida. Zelar pelo que é seu, mesmo que seja momentâneo. E isso não vem com uma ordem da mãe ou uma reunião dos amigos da república onde se mora. Quando outros falam o que devemos fazer, ainda não sabemos o quanto isso se torna necessário. Não faz parte da gente como costume. É apenas quando a louça acumula na pia e os bichos começam a aparecer que a gente sente a real necessidade de manter um ambiente habitável. Entende, a partir daí, que limpeza, saúde e durabilidade estão alinhados de uma forma que jamais entendemos até sentir no próprio bolso.

Outro lado interessante da vida exclusiva é a autenticidade. A cada dia mais e mais descobertas sobre como somos é aliada a como podemos viver melhor. Mesmo que esse melhor seja apenas a maneira mais fácil de existir. Trocar camisetas de algodão por malha fria que não precisa passar ou encontrar a melhor forma de estender a roupa, passam a exigir um elaborado sistema de tentativas e erros. Nessas pequenas descobertas, que a vida eremita nos presenteia, está o fato de que escovar os dentes, assim como todo asseio, faz parte de uma vida ajustada. O lixo não caminha para fora de casa e as compras não aparecem na geladeira. Não há vozes lembrando que a água está no fim e, em época de desconexão presencial, pedir pó de café aos vizinhos é uma afronta tão grande quanto cumprimentá-los. Quem mora só não tem em quem por a culpa quando se quebra um copo ou não se paga uma conta e termina percebendo que mentir para si mesmo não é uma opção, então por que passar trabalho mentindo para outra pessoa?

As coisas não funcionam mais para impressionar. Elas são um reflexo do que somos e, se com o tempo a gente muda, as coisas acompanham o processo. Logo deixar a casa com a nossa cara vai além do "lar doce lar" do Hulk. Tem relação com a organização, mesmo que seja no caos individual que a gente cria. Daqueles pequenos ecossistemas que quando a mãe aparece para visitar e decide "arrumar" ou a diarista "organiza", passa-se dois ou mais dias procurando suas coisas. E aí se percebe que cada pessoa tem seu modo de ajustar a vida. Entender isso é meio caminho para um relacionamento feliz, pois idiossincrasia não é mais um conceito abstrato. Está ali, no modo como mantemos a mesa do computador (des)organizada ou deixamos o saca-rolhas na gaveta dos panos de prato.

Outro lance interessante da vida avulsa é o instinto de sobrevivência. Acordar sozinho com uma febre alta ou uma dor de garganta, e ter que ir atrás das próprias coisas, torna a pessoa mais sensível. Num relacionamento posterior, o cuidado passa a fazer parte do dia a dia. Daquele que já acordou indisposto sem ter ajuda e passa a entender que um simples chá trazido na cama, não é mais um simples chá, e sim uma xícara de carinho. Uma forma de empatia que não necessita imaginação, pois foi vivenciado em algum momento de solidão no passado. Outra face da vida independente, e talvez a mais atrativa, é a liberdade. Tudo nos é permitido. Na verdade, a permissão não existe mais e a pergunta da vez é "o que queremos para hoje?". No início se quer tudo. Depois de um tempo, os desejos diminuem. Com mais alguns anos, só queremos paz. Quando se mora sozinho, valoriza-se os momentos de solidão e retiro. Respeitar esse tempo e esse espaço passa a ser uma filosofia de vida. É importante que se mantenha um tempo seu e, na contramão dos relacionamentos, torna-se importante que o outro tenha um tempo para si. Quando as pessoas percebem a importância disso, passam a respeitar pequenos espaços numa vida conjunta. Sem brigas. Os dois percebem isso. De tudo isso, você pode extrair a certeza de que um relacionamento com alguém que é dono do seu próprio espaço já inicia com uma margem segura de êxito. A pessoa já traz na bagagem autoconhecimento, senso de organização, princípios de empatia e muitas manias que nada mais são que autenticidades de não se importar em fazer algo daquela forma. Quem já passou por isso, sabe quanto há de verdade nisso tudo. Portanto, ao invés de ficar procurando alguém dessa ou daquela forma para namorar e ter um relacionamento duradouro, siga uma pequena dica: more sozinho(a) primeiro. Seja você a sua primeira escolha. Saiba habitar dentro de si, de uma forma que não se tenha medo de ficar a sós com os próprios pensamentos. Busque, no autoconhecimento, entender que princípios são bases reais do nosso caráter. Ficar só por algum tempo é uma forma de perceber o peso da responsabilidade das nossas escolhas, enfrentando os medos, assumindo riscos, fazendo sobreviver diariamente os sonhos e sendo sincero conosco. Talvez dessa forma, estejamos prontos para nós mesmos, para aquele processo de independência que tanto desejamos. Porque a busca desenfreada por melhorar apenas o outro, é uma marca dessa sociedade cada vez mais egoísta, que culmina com apontar os defeitos alheios e toda aquela série de desencantamentos que afunda uma relação após a outra. Todos merecem a melhor versão de nós, a começar nós mesmos.

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