E se fôssemos mais humanos?
- Jimi Aislan
- 24 de dez. de 2018
- 2 min de leitura

Criou-se um mito consumista de que todo mundo é especial. Uma ideia que afasta, que nos torna diferenciados e descobertos por nossas especificidades. Assim, somos repartidos em estereótipos cada vez mais singulares até chegarmos a solidão do indivíduo. Para cada um de nós há um produto, uma música, uma marca que passa a nos definir. Mas como limitar o que é ser uma pessoa? Talvez o que tenhamos de mais singular mesmo seja apenas nossa humanidade. Na contramão de tudo que nos afasta, poderíamos tentar entender como somos tão próximos.
Carregamos mitos e histórias. Temos medos e esperanças. Lembramos situações felizes tanto quanto desejamos esquecer as mais tristes. E as perdas são sempre cicatrizes que até podem ter a dor diminuída, mas ficam expostas em algum lugar entre o corpo e alma. De não acreditar em sexto sentido, mas sentir arrepios repentinos e sensações inexplicáveis e, no íntimo, pensar que deve haver algo a mais. Quem nunca teve aqueles momentos lúdicos de fantasias, sonhar acordado ou mesmo dormindo, nos quais se acomodam novas perspectivas e velhas metas? Igualmente ser assombrado por obsessões, e muitas vezes ser oprimido por não se encaixar num padrão social que está amalgamado na sociedade. Querer ser livres, embora presos a convicções.
Ou ainda, do nada, ser jogado ao passado por um perfume ou na colherada do sabor de infância. Aquela música que relembra um amor do passado. E por falar no amor, uma sociedade que julga e exclui os loucos, aceita a alienação passageira de quem está perdidamente apaixonado, não importa se aos treze ou aos cinquenta anos, se aqui ou na Itália. É o tipo de doidice que a sociedade aceita e que quem está devaneando não vê saída e quem está fora acha até graça e sabe que passará.
À noite, entre o lusco fusco da sonolência, aparecem vozes internas, sussurrando medo de envelhecer, morrer, não trocar de emprego, pagar uma conta, não ser aceito ou amado, contar a verdade ou viver a mentira. De dia, essas vozes se escondem no turbilhão de afazeres, mas à noite elas nos gritam e por vezes fritamos na cama.
Foram nossas humanidades que permitiram construir esse mundo quase sem limites. E na base dessa evolução está o diálogo. Comunicação é a ponte que nos une, independente da língua, abrir um canal de conversação é possibilitar entender como somos próximos. É da conversa que podemos ter uma perspectiva, ainda que pequena, do que é ser um taxista indiano, uma africana raptada de casa, um monge tibetano, uma criança com seis anos. Não importa o quanto aparentamos ser distintos, na comunicação podemos explorar essas diferenças e respeitá-las. Que essa seja uma época de aproximação, que usemos toda nossa capacidade evolutiva de pensamento, percepção e fala com o propósito de correr na direção contrária do afastamento social e buscar sermos simplesmente mais humanos.



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