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A tal empatia que nos falta

Foto do escritor: Jimi Aislan
Jimi Aislan
4 de fev de 2019
3 min de leitura

É visível. Abra uma rede social e lá estará um perfil (ou milhares deles) fazendo piada com o sofrimento alheio. De aspectos físicos à crença, não perdoam nem a tragédia. Alguns visivelmente trabalhando o preconceito velado, bem à brasileira, daqueles que começam com piadas zoando estereótipos. Outros buscando minutos de fama, numa viralização em potencial de um meme. O que falta para nos vermos como um só povo? Seria possível, diante de tanta diversidade regional, trazermos um vislumbre de nação única? A resposta depende muito do conceito que construímos de empatia.

O fato é que hoje somos milhões de individualidades com raros traços de semelhanças. As redes digitais não são culpadas disso. Elas são ferramentas, pois as mãos ainda continuam sendo humanas. E são mãos que afastam, que preferem o isolamento de um fone ligado no celular e olhos desgrudados das pessoas. Dedos que digitam bloqueio de amizade, teclam mensagens odiosas, esbravejam raiva gratuita contra minorias, às vezes como mera diversão. Tudo resumido na tela touch de um ser humano que não toca o outro como igual.

E com as diferenças coexistimos. Como homem posso opinar sobre o aborto, ou deveria discutir apenas abandono parental? Como pessoa de classe média, possuo o direito de questionar cotas para quem teve menos oportunidade? Posso rotular como mimimi feminista querer um vagão de trem exclusivo, quando nunca fui abusado no transporte público? Como posso opinar sobre algo que nunca sofri? São perguntas que passam, obrigatoriamente, pelo conceito de empatia. A internet pluralizou a ressonância de vozes e isso deveria ser muito positivo. Contudo, nos tornamos uma pátria de especialistas em direitos alheios. Nação ilusória no Facebook politizando de maneira burra e simplista questões muito mais complexas, polarizando em apenas duas possibilidades anos e anos de luta.

Essa batalha de cada indivíduo merece um olhar especial, afinal de contas esse é o tratado democrático. Eu troco meu voto, pelo direito e dever perante um estado. Mas o distanciamento, antes apenas por bairros e muros, tornou-se ainda maior através da digitalização das nossas vidas. As pessoas têm se fechado em seus aplicativos, no faz de conta do Facebook, na ostentação do Instagram, no alheamento da Netflix, e se eximido de olhar para os lados. Volta e meia uma tragédia acontece e a comoção toma conta, mas o efeito duradouro é cada vez menor. Precisamos de mais desgraça para nos enxergarmos como brasileiros? Às vezes parece aquele trecho do filme Titanic, o barco afundando e o violino segue.

O triste é que a maioria não acredita que tragédias por negligência podem acontecer dentro de sua casa. E o pior, quando acontecem todos somos passíveis de sermos visto apenas como um número. Quantos morreram lá? Foram uns cem, cento e cinco. Uma vida importa, porque conectada a uma rede social, essa vida fará muita falta. Assistimos a impunidade ser tomada como regra e o desespero bater na porta de pessoas transformadas em estatísticas. Números que podem ser distorcidos por governos e imprensa. Dígitos que podem ser manipulados e até escondidos. Quando foi que perdemos a noção da humanidade?

Talvez esse afastamento venha pela crença de que nenhum mal pode nos acontecer. Basta olhar para sua família e pensar “e se fosse conosco?”. Empatia não é esmola, não é benefício comunitário. Empatia é um músculo social que deve ser exercitado desde criança. É o amálgama que nos mantém culturalmente ligado desde as primeiras comunidades. Sem ela, as aparentes diferenças nos distanciam, quando na verdade, somos mais parecidos que imaginamos. Um saco matéria que se degrada no tempo, o mais fraco dos animais, que não possui garras afiadas, mandíbula forte, olhos aguçados, olfato potente. Dependemos de um intelecto que deve ser desenvolvido a partir da experiência que nos é passada através da cultura. De milhares de anos de erros e acertos. De antepassados. Somos a construção de séculos de empatia. Se compramos um produto sequer para sobreviver, significa que precisamos viver em sociedade. Se dependo de alguém que faça minha manteiga, como posso achar que essa pessoa não é importante na vida social?

Empatia não é uma foto ajudando alguém, não é esse textão apelando pra sua consciência. Ela é mais que isso. É exercício diário de enxergar o outro como se fosse nós mesmos. Mirar o espelho e pensar “como posso entender alguém para juntos construir algo maior”. Não basta falar, empatia é verbo de ação que começa no escutar o lado do outro, entender como a realidade está posta de vários lados e tentar, juntos, encontrar um denominador comum para todos. É difícil sim, mas sem diálogo, nas piadas, na forma como estamos fazendo hoje no Brasil, a empatia está cada vez mais distante de nós. E nós, cada vez mais longe de nossa humanidade.

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